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E ele chorou...

Escrito por Léo.

Não da maneira como estamos acostumados a ouvir, mas apenas com uma lágrima que rolou até seu focinho negro e se postou no chão como uma pequenina gota do um oceano imenso da insensibilidade humana.

Já nem ouvia mais as palavras de um coração ressecado pela falta de amor e respeito. Se manteve deitado aos meus pés, indiferente aos feios e sem raça que ouvia , já estava acostumado. Abaixei e passei a mão carinhosamente pelo seu rosto triste e desiludido e, também emudecida, afaguei sua dor. Sabia bem o que sentia, pois minha alma também sentindo a rejeição ao Boris parecia que trancava minha respiração e chorava muda no peito.

Boris, vira-latas esperto, que aos trancos e barrancos conseguiu, desde pequenininho, se virar sozinho numa cidade de corpos vazios, sempre empurrados para a frente, pisoteando tudo e todos sem dar a mínima importância ao que se esmagava com os pés pesados.

Vamos embora Boris, disse-lhe baixinho, um dia encontramos alguém a tua altura. Já estávamos cansados de esperar por esse alguém, bem sabia! Boris me olhou tímido, com suas orelhas baixas, levantou-se e sacudiu seus pêlos brilhantes, incrédulo como ele só, e me acompanhou de volta para sua espera.

Ora Boris, não seja tão pessimista, quem sabe não foi melhor assim? Há males que vêm pra bem...todo mundo sabe disso! Tomara que tenha acreditado...
Durante muito tempo ele achou que era invisível, sua pele sem pêlos, seu corpo sem carne e suas costelas à mostra nunca foram mencionadas por ninguém, não que ouvisse. Ele até gostava, podia aprontar todas pelas ruas da cidade. Acho que Boris também não se importava com a morte sempre atravessando a seu lado, muitos de seus amiguinhos acabaram esbarrando nela, alguns até tiveram suas cabeças decepadas para pesquisa, e já não vagavam mais como ele atrás de respeito,comida e quem sabe até um lar! Por pura sorte nosso menino não conheceu o macabro!

Ah...os humanos, pensou Boris, tanta arrogância e insensibilidade...Não dispensam um medíocre prazer pela solidariedade, não trocam suas preguiças pelo apoio a um necessitado. Por que valorizam mais suas pequenas vaidades que as nossas misérias, não se olham no espelho do amanhã? Suas desculpas até são grandes, suas almas é que são pequenas!
Não pude desfazer seu conceito, não tive argumentos para tal, acho até que não adiantaria, pois ele sabia muito mais que eu o que é não ser visto, o que é estar invisível o tempo todo na multidão, embora até conheça pessoas de alma bem grande, mas que infelizmente, são tão desprezadas quanto nossos protegidos, nossos ideais, nossos corações, talvez porque nossa disposição de renunciar a muitas futilidades da vida para cuidar de inocentes necessitados seja entendida como uma bofetada às suas mediocridades!

Enquanto abraçava meu pequenino amigo, minha decepção foi se aplacando e dando lugar ao prazer de estar ao lado de quem realmente ama sem preconceitos, sem interesses.
Será que estamos sós?

Boris parecendo ler meus pensamentos, abriu seus olhos negros, balançou sua cauda rala e lambeu meu rosto e sentimos por um momento que nossas almas eram iguais, precisavam de carinho e de proteção e que, na verdade, invisíveis são os que não conseguem aprender a importância de dar e receber o amor verdadeiro que só os animais são capazes de ensinar.
Não nos importávamos mais com a rejeição, agora queríamos mesmo era estar juntos, seu corpinho preto se balançava todo enquanto brincávamos de cabo de guerra, arriava sua parte dianteira e haja força para manter nosso amigo feliz, era tudo o que queria.

Só sua lágrima triste rolando pelo focinho foi difícil de secar.

Autor: Fátima Borges

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